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Meu pedido de mês da mulher…

Published 19/03/2015 - 0 Comments

Eu sei que o dia 8 de março já passou faz onze dias. Não me importo, pois o assunto que quero escrever hoje vai muito além de um dia, é papo pro ano todo, pra toda hora.

Não adianta nada ganhar flores dia 8 de março e no resto do ano inteiro é: vadia, puta, delícia, gostosa, ah você na minha cama, sonho do papai e por aí vai. Se você não é mulher, você não é capaz de entender o nojo que sentimos com cantadas, que chegam do caminhão de lixo e também do carro importado. Já xinguei, mostrar o dedo do meio é mais forte do que eu. Atualmente, uso uma nova arma, lanço um olhar de ciclope e chego a sentir o raio vermelho que sai dos meus olhos e queima o coração e a mente daquele ser repetindo: sabia que isso também acontece com a sua mãe, com a sua irmã, com a sua filha!!! Pare agora ou seu destino será ser estuprado toda noite no inferno pelo diabo. Acredito mais nos meus poderes de bruxa do que em deuses. Se não consigo convencê-los com meus olhares de fogo, estou certamente garantindo que em breve o chifrudo terá noites ainda mais quentes.

Sabe o que mais? Lavar a louça do almoço um dia do ano, porque é o dia da mulher, e no resto dos 364 dias deixar toda a responsabilidade da limpeza, organização e administração da casa nas costas da mulher, porque, afinal, você é homem e não consegue arrumar as coisas do jeito que uma mulher faz é ser machista pra caral#$! Vou te contar um segredo: nós mulheres não nascemos com um gen de limpeza e organização e como dobrar roupas. Tudo isso é ensinado a nós por nossas mães e avós. É um conhecimento secreto que elas só ensinam para gente. Sabe por quê? Porque não é coisa de mocinha um banheiro sujo assim, não é coisa de mocinha uma gaveta atrapalhada dessas, não é coisa de mocinha um quarto zoneado assim… E foi aí que eu aprendi a arrumar minha cama bem retinha, sem deixar uma dobrinha, limpar meu banheiro, dobrar minhas roupa direitinho na gaveta, manter o quarto arrumado e limpo e fui criando a tal mania de organização e limpeza, afinal, para encontrar a paz, era preciso agir como uma mocinha. Minha mãe não fazia por mal, afinal, ela foi criada assim e também a minha avó e minha bisavó e a mãe da minha bisavó…

Por outro lado, nunca ouvi um: venha limpar esse banheiro que isso não é coisa de rapaz! Não! Porque banheiro sujo, todo mijado é coisa de homem! Quarto atrapalhado e sujo, com roupa  e copos de um mês debaixo da cama é hábito normal de menino! E assim são criadas gerações e mais gerações de homens machistas e porquinhos, que se acham incapazes de limpar, lavar e arrumar o ambiente em que vivem, que acham que precisam de mulheres para arrumarem suas vidas. Coitados!

A capacidade de um homem limpar uma pia suja de gordura é a mesma que a minha. Como de limpar o banheiro, de passar a camisa. Basta querer, perguntar para quem tem mais experiência em caso de dúvidas, hoje em dia temos até o Google e o YouTube com dicas e tutoriais para aprender tudinho que se precisa para cuidar de casa. Por favor, releve o fato de que a maioria deste conteúdo é direcionado para mulheres. Somos bombardeadas de informações sobre o tema, não é uma questão genética! Você também, amigo homem, é capaz de ser tão ou mais competente nas tarefas domésticas que nós, e também é capaz de se controlar ao ver uma mulher que ache bonita na rua, basta querer aprender em poucos meses aquilo que somos ensinadas desde bebês. Mesmo em menor tempo, sei que você é capaz!

Meu pedido de dia/mês da mulher é: vamos ensinar meninos e meninas a fazerem o serviço doméstico igualmente? Vamos mostrar para os meninos o quanto é feio tratar uma mulher como um objeto colocado ali para sua satisfação, admiração e bel prazer? Nós não somos frágeis, delicadas, maternais e amamos cuidar da casa. Somos ensinadas, praticamente forçadas, a ser mulheres como o mundo espera que uma mulher seja. E, sinceramente, é um saco.

Ainda bem pequena, em um dos meus primeiros natais, minha mãe me perguntou o que eu gostaria que o papai noel me trouxesse. Ela conta que eu disse que gostaria de ter um pintinho como o do meu irmão. Não me lembro de nada disso, mas não precisei de muita idade para entender que ter um pintinho significava mais que uma pistolinha de xixi mais divertida que sentar no peniquinho.

Hoje, meu pedido ao papai noel seria os olhos do ciclope. Pode ser uma versão light, com poder apenas de queimar a língua de quem acha que cantada é elogio.

A imagem acima foi feita pela cantora e ilustradora Karina Buhr para o seu manifesto “Sexo Ágil”, que você confere a edição de 2014 abaixo:

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